IAUTENTICIDADE?

Você ainda lembra de como é escrever com emoção?

Tudo que está sendo produzido hoje com IA tem sido motivo de alvoroço. Os haters ou saudosistas pregam o fim do trabalho e do emprego. Os otimistas preveem um mundo perfeito gerido por robôs e todos felizes curtindo a vida. Os realistas sabem que é mais uma onda, uma bolha, que empregos serão engolidos e novas ocupações surgirão. Afinal, o mundo precisa de pessoas.

“Não sois máquinas, homens é que sois”, bem cunhou Chaplin no seu célebre discurso em O Grande Ditador.

Mas, sem fazer textão, sem usar ChatGPT, Gemini ou Claude, escrevendo mesmo à moda antiga: vamos sentir falta da IA no futuro? Ou do que há de mais puro?

Já pensou na redação das férias da criançada feita com IA?

Uma peça de teatro roteirizada por uma plataforma. E, melhor, interpretada por robôs. Vamos rir automaticamente? Ou chorar lágrimas de crocodilo?

Já pensou na carta de amor escrita sem hesitação? Na qual o “eu te amo” foi escrito por uma máquina? Na mensagem de aniversário que quem enviou sequer escreveu? Tudo perfeito. Talvez seja justamente esse o problema.

Não significa dizer que usar IA seja deixar de ser humano. Ferramentas ampliam nossas capacidades.

A questão talvez seja o que estamos deixando de fazer porque a IA existe.

Se o famigerado ChatGPT ajuda a organizar minhas ideias, ok, ainda assim eu continuo pensando. Ora, o prompt é meu. Mas, no final, eu nem li direito o que escrevi. E muito menos revisei. Ou seja, será mesmo que aquela é a minha VOZ?

Talvez, num mundo em que qualquer pessoa possa produzir um texto impecável, uma imagem perfeita ou uma música emocionante em segundos, passemos a valorizar justamente as pequenas evidências de humanidade: a letra torta, a hesitação do primeiro encontro, o frio na espinha na hora da palestra, a gargalhada depois de uma piada bem contada, o desenho de criança, o violão desafinado tocando sua música preferida ou o assovio estridente para chamar um amigo lá do outro lado da rua, daquele jeito, inconfundivelmente seu.

Não vamos deixar de usar inteligência artificial. Mas talvez tenhamos de aprender algo mais difícil do que usá-la: quando não usá-la.

Porque ninguém quer receber um abraço eficiente.

Porque ninguém quer assistir a um show de rock impecável.

Quem for bom de memória aí vai lembrar das contracapas de discos, como os da Legião Urbana, se desculpando pelos erros de gravação.

Isso é autenticidade.

E talvez, depois de toda essa corrida pela inteligência artificial, o verdadeiro luxo seja encontrar alguma coisa genuinamente humana.

IAutenticidade?

Quem tem Vozcomunica